• Daniel Duncan

BELUSHI (2020) | CRÍTICA


Produzido pela Showtime, Belushi segue a linha temporal dos acontecimentos que culminaram na trágica morte de um dos mais cultuados (e exagerados) comediantes americanos. No entanto, ao contrário da biografia sensacionalista lançada por Bob Woodward, Wired: The Short Life and Fast Times of John Belushi, o documentário de R. J. Cutler foca principalmente na obra do humorista, traçando um paralelo entre sua vida pública e privada. Membro do The Blues Brothers e um dos fundadores do programa Saturday Night Live, John Belushi, ou “o Bruce Lee da comédia”, como era descrito por Tracy Morgan, morreu em 1982 vítima de overdose no hotel Chateau Marmont, em Los Angeles, aos 33 anos.



Em seus breves seis anos no cenário nacional, nenhum comediante foi mais popular do que John Belushi. No auge de sua fama, no final década de 70, ele era o novo fenômeno da tevê e protagonista do filme de comédia de maior bilheteria de todos os tempos, Animal House (1978). Tudo isso enquanto o seu disco Briefcase Full of Blues, do grupo musical formado em parceria com Dan Aykroyd, ocupava o 1° lugar nas paradas. No entanto, os grandes sucessos de sua vida foram ofuscados por sua morte chocante e abrupta. E esse é um dos grandes acertos do documentário: criar um retrato que humaniza o comediante, mas sem bajulações e saudosismos. A intenção do diretor é muito mais transformar Belushi em uma figura multidimensional, destacando seu desequilibro, sensibilidade e suas compulsões, que feriram, não só a ele, mas a todos que o cercavam.



O resultado é um documentário que não faz conclusões sobre a figura que Belushi foi, mas acomoda versões diferentes de um mesmo personagem. Se por um lado é comovente ter acesso às cartas que Belushi escrevia para a sua esposa, revelando sua turbulência interna e dúvidas, por outro, o diretor destaca aspectos menos atraentes desse personagem, como sua ambição e vaidade, do tipo que recorta críticas positivas dos jornais e as carrega no bolso. Os comportamentos misóginos de Belushi também são tratados sem ressalvas, da mesma forma que seus relacionamentos tumultuados nos bastidores da tevê: ele tinha ciúmes do colega de elenco Chevy Chase, estrela da 1ª temporada do SNL, e entrava em conflito constantemente com o criador, Lorne Michaels. Em um trecho perturbador do documentário, quando a saúde de Belushi estava em risco, um médico disse a Michaels que se o comediante se apresentasse no programa naquela semana, suas chances de sobrevivência seriam de 50/50. "Eu poderia viver com essas probabilidades", rebateu Michaels. O peso da frase fica ainda maior graças aos recursos utilizados no documentário: áudios reais da época. Ao invés de soterrar a produção com os cansativos depoimentos na frente da câmera, Cutler costura toda a narrativa com uma coleção extraordinária de entrevistas gravadas em áudio, que fornecem mais tempo de tela para imagens de arquivo, o que é sempre interessante para os fãs, como também estabelece com mais exatidão o tom de certas declarações e, até mesmo, a atmosfera de certas fases da vida do comediante. Outro recurso utilizado é a recriação de situações com desenhos animados e a animação de fotos, que possui um valor mais estético, mas corrobora de forma muito eficiente na construção da estrutura do filme.



Mas o que distingue a produção de outros registros sobre a vida de Belushi, é não presumir que ele estava destinado à autodestruição. Seus impulsos autodestrutivos foram a soma de muitas coisas: o isolamento, as primeiras experiências com o estrelato, a arrogância, a morte da avó, o afastamento da esposa, e, principalmente, uma cultura instalada na década de 70 que obscureceu os fardos do vício e as possibilidades dos viciados superarem a doença. Belushi é um olhar rico sobre a vida de John Belushi e que traz reflexões importantes sobre fama, saúde mental e dependência química, mas, principalmente, é uma oportunidade para se conhecer mais sobre o trabalho do comediante.